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Prólogo

Em abril do ano passado criei esse tumblr tentando exorcizar alguns tipos que me atormentavam no Facebook. O que era para ser engraçadinho acabou virando uma realidade pesada, do tipo os incomodados que se exilem. E foi o que eu fiz. Mandei um grande adeus à rede social e aquele ruído de felicidade nem sempre sincera (palavra-chave nesta diatribe) terminou. Foi um tempo de alívio. Mas sou como todo mundo, ou seja, senti saudade de meia dúzia de amigos e de pessoas que admiro e, de alguma forma, estavam na minha lista de conhecidos. 

Foi quando orquestrei uma volta discreta - o que significou adotar um sobrenome polonês e procurar a meia dúzia de amigos citada anteriormente.

Agora está jóinha, agora estou feliz. Mas é uma felicidade bem parecida com a obtida com meu amigo Zoloft: existe uma névoa entre o sentimento e a realidade. As coisas estão boas porque a química ou o rearranjo tecnológico estão filtrando o problema real. E qual o problema real? Está cada vez mais difícil administrar a ~perfeição online~. 

Um exemplo? A síndica do meu prédio. Nunca consegui arrancar sequer um bom dia -ou um conserto da lâmpada do corredor-, na vida offline. Como minha ex-amiga virtual a história era outra. Volta e meia era impactada por mensagens felizes, com posts sobre as maravilhas do condomínio, dos vizinhos e da harmonia coletiva. Quem visse de fora pensaria <Dilma Bolada mode on> Êta síndica maravilhosa! <Dilma Bolada mode off>. Porém eu estava lá. Eu sabia que algo não ia bem. 

I 

Então entramos no cerne da treta, que é a sinceridade. Ou, melhor, o descolamento da realidade assim que desbravamos o maravilhoso mundo virtual. Veja, eu não acho que todo mundo deve ficar se lamentando nas redes. Mas também não consigo engolir a galera da autopromoção (i.e. minha síndica) porque, sejamos francos, ninguém é tão perfeito assim. Tá faltando sinceridade. Tá sobrando propaganda enganosa. E nem falo daquelas fotos lindas que te fazem olhar pra pessoa duas vezes, quando andando na rua, pra ter certeza de que se trata da mesma. 

O que eu quero dizer, acho, é que já passou aquele tempo (sdds orkut/pacman) da personagem virtual linear, unidimensional, perfeita. Agora que passamos 95% do tempo nessa dependência de redes sociais, me preocupa a necessidade de vender perfeição e felicidade a cada novo post.

Ter o jantar perfeito no instagram, ser o ironicão no twitter, o cheio de skills do linkedin, o amigo de todos no facebook, o vip do foursquare, e tudo isso se retroalimentando vinte e quatro horas por dia para uma audiência que a) não conhece a pessoa e compra seu discurso b) conhece bem demais e sabe que a perfeição passou longe daquele corpo me parece simplesmente esquizofrênico (deus, como admiro aqueles que mantém ex mulheres e namoradas na timeline).

II

Tudo isso me faz lembrar do Wallace, claro.  

Ler o Infinite Jest nos dias de hoje é ficar assustado com os exercícios de futurologia do rapaz. Explico: em determinado capítulo somos apresentados a uma tecnologia que “enriquece” as ligações telefônicas. Sai a superioridade da voz, entra o realismo da imagem (sim, um tio avô do skype). Mas o vídeo-fone teve uma existência meteórica no futuro escrito pelo Wallace porque:

a) mudou a dinâmica de atenção. Antes, era possível falar ao telefone e prestar atenção à lixa de unhas. Agora, era necessário dedicar foco exclusivo ao rosto que estava do outro lado da tela. 

b) a preocupação com a aparência cresceu de forma doentia exigindo que a tecnologia adotasse a alta definição num primeiro momento e, em seguida, o uso de máscaras. Uma espécie de photoshop barato que, a cada avanço tecnológico, ganhava melhorias chegando ao ponto de mudar a estética do rosto e do corpo. 

c) as máscaras eram tão boas, apresentavam os interlocutores de forma tão mais aperfeiçoada, que logo ninguém mais teve coragem de sair de casa. (O que foi algo ótimo para a indústria de delivery, ao menos).

IJ de lado, passamos ao ensaio E unibus pluram: television and U.S. fiction, que foi adotado pelo movimento da New Sincerity principalmente pelo último parágrafo (mas todas as outras 40 e poucas páginas merecem atenção principalmente porque foram,  veja bem, escritas na pré-história do twitter e do hipsterismo de seriado. Não é sobre perfeição mas é sobre ironia como ~arma de defesa mundial~. Ainda não sou tradutora, então vai no original. Desculpe:

The next real literary “rebels” in this country might well emerge as some weird bunch of “anti-rebels,” born oglers who dare to back away from ironic watching, who have the childish gall actually to endorse single-entendre values. Who treat old untrendy human troubles and emotions in U.S. life with reverence and conviction. Who eschew self-consciousness and fatigue. These anti-rebels would be outdated, of course, before they even started. Too sincere. Clearly repressed. Backward, quaint, naive, anachronistic. Maybe that’ll be the point, why they’ll be the next real rebels. Real rebels, as far as I can see, risk things. Risk disapproval. The old postmodern insurgents risked the gasp and squeal: shock, disgust, outrage, censorship, accusations of socialism, anarchism, nihilism. The new rebels might be the ones willing to risk the yawn, the rolled eyes, the cool smile, the nudged ribs, the parody of gifted ironists, the “How banal.” Accusations of sentimentality, melodrama. Credulity. Willingness to be suckered by a world of lurkers and starers who fear gaze and ridicule above imprisonment without law. Who knows. 

E, por fim, lembro também do 12 de setembro de 2008. Se o cara, que era a porra de um gênio (claro que tô reduzindo a coisa de forma dramática, mas você entende onde quero chegar), largou esse mundo de mão, o que sobra aos pobres mortais? Como os adolescentes de 2013 lidam com essa nova dinâmica? Eu me sinto completamente tiazona quando temo por eles mas não consigo não pensar nisso. 

III

Claro que pode ser paranoia. O brasileiro tem uma capacidade de abstração inversamente proporcional à minha capacidade de chafurdar na autoconsciência. E existe a crença de que esse povo nem mesmo lê, porque seria diferente nas redes? Desta forma, ele não teria qualquer surto de comparação/ desconfiança/ angústia/ etc pois nem perceberia os passos online do outro.

De qualquer forma, onde ficam os imperfeitos com necessidade de expressão semelhante a dos vendedores de felicidade/auto afirmação? Talvez nas profundezas do Tumblr, com pseudônimos que descolam totalmente da persona que usam nas ruas (quando tentam ser mais vendedores, mais capazes, menos deprimidos. Sim, o processo inverso). 

No fim das contas, não sei qual a conclusão disso. Fica apenas um grande ponto de interrogação pairando. Existe lugar pra sinceridade nestas redes? A sinceridade ainda é importante nestes novos contextos? O que acontece quando todos estiverem reprimindo a mesma no on e no off? Eu não sei. E tenho medo. Inclusive medo de admitir isto. Ainda bem q ninguém lê.

//E é por isso que o blog acaba aqui. Mentira. É porque nao tenho mais problemas com o facebook. Obrigada, indústria farmacêutica. Adeus =*
// 

Então seu professor postou a foto dos filhos e você curtiu. Really? Vamos às razões para tal ação.

1. É uma foto realmente incrível, algo ao mesmo tempo inteligente e tocante, que te lembra de bons momentos da sua própria infância e te deixa com o coração aquecido.

2. Você é um puta de um puxa-saco que precisa desesperadamente de uma nota alta e acha que esta intimidade será o caminho mais curto, ao invés de estudar. 

Meu amigo, não sei como dizer isto de forma suficientemente educada. Mas, caralho, você está fazendo isso errado. Tão errado quanto uma prostituta que elogia o cavanhaque do cafetão achando que ganhará uma fatia melhor da trepada que acabou de performar.

Já ouvi milhares de histórias sobre o Facebook. De gente que encontrou o amor da vida, o elo perdido ou mesmo um novo emprego através da redinha. Mas deixa te contar algo triste: não há registro de professor que tenha sentido um arrebatamento tão grande, após um like, que correu para o computador e dobrou a nota daquele trabalho vergonhoso para o curtidor em questão.

Tudo bem curtir uma foto especialmente interessante ou um status intelectualmente superior ao “acabo de comer um sanduíche” a cada cinco meses. Mas você está curtindo fotos de uma criança de 10 anos, que não te conhece. Nesta foto ela não faz nada de extraordinário, não está remando no oceano e não está segurando uma medalha de bravura porque não salvou uma senhorinha de um incêndio. Ela está numa cadeira, num cômodo que você desconhece, com uma expressão que representa nada mais do que tédio. O que há para se curtir?

Este like é irônico? Se for, tem meu respeito. Mas a chance é mínima.

Porque, em um intervalo de segundos, você publicou qualquer expressão do tipo “ahhh”, “oown” ou “hehe”.  E logo depois curtiu a foto de um prato que ele acaba de comer.

É, meu parça, está na hora de um reality check. Aquele momento no tempo e no espaço em que você para para avaliar a própria vida e o que está fazendo com ela. Você é importante, você existe e tem uma vida cheia de coisas incríveis. Você não é o que você curte compulsivamente. Principalmente se você curte apenas para fazer social. Acredite nisto. A gente te ama, ok? Ok. 

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Você passa pela vida achando que nunca precisará discutir a decadência humana com uma criança de seis anos porque, afinal, a criança não é sua e os pais -teus irmãos- que se virem. Porém, de uma hora pra outra, você sai pra passear com a pequena criatura, e se vê explicando por que diabos o mendigo tenta colocar fogo numa latinha e sai correndo loucamente pelas ruas. É, meus amigos, ninguém disse que seria fácil.

Mas posso lhes garantir uma coisa: existe algo pior do que isso.

É explicar, para esta mesma criança, por que diabos a foto de perfil da outra titia no ~feice~ estampa agora um nórdico de rosto particularmente bruto e confuso. Numa foto entre melosa e pornográfica que inclui uma quantidade considerável de línguas para um espaço tão pequeno.

Além disso, o nome da titia já não é o arraigado Fulaninha de Tal. Agora é o orgulhoso Fulaninha de Tal e Nórdico Bizarro: AMOR ETERNO. Ah, os perfis de casais. Estas peças assustadoras da modernidade que nos fazem pensar na vergonha causada por terceiros e na necessidade de manter-se solteira com o único propósito de evitar este risco.

A foto das línguas é só o primeiro susto, que apareceu timidamente, na timeline. Mas numa tentativa de tranquilizar a criança, explicando que o nórdico bizarro não é um monstro que invadiu o perfil da titia (não me peça para explicar outras invasões. Isto é problema de seus pais e, por enquanto, a cegonha está funcionando muito bem) clicamos em seu nome e somos transportados para uma dimensão um pouco mais assustadora: a foto de capa.

A foto de capa é, como a ciência, algo incrível, estupendo, emocionante. Até que caia em mãos erradas e seja usada para fins maléficos. E toda a ênfase será insuficiente aqui mas a equação foto de casal, tirada com o celular e editada no Paint NÃO PODE SER FOTO DE CAPA. Não pode ser imã de geladeira. Não pode ser nada mais do que um presente irônico dado para a outra parte e tão secreto quanto a camisinha de tamanho P comprada por ele na farmácia.

Meu querido, minha querida. Se você tem um perfil de casal no Facebook, e ele não é voltado a qualquer tipo de putaria e divulgado somente em sites ~especializados~, leia minha súplica: recupere sua vida, sua identidade online e o respeito de seus amigos.

Você pode (e vai) passar vergonha suficiente fazendo check-ins com o amor, postando fotos do benzinho ou enchendo seu perfil com aquelas declarações de amor bagaceiras dignas de questionário dos tempos de escola.

Prometemos não julgar (tanto) se você prometer dar o primeiro passo e retirar o nome do Nórdico Bizarro de SEU perfil. 

Os aniversários me incomodam no Facebook. Incomodam tanto que me vejo pensando mais neles do que na situação da fome na África. A cada novo dia, que me aguarda com obrigações e tarefas, tem gente comemorando mais um ano nessa terra pé no saco.

Mas me deixa reformular o problema. O que me incomoda de verdade é este tal de Ticker. Ou Novidades. Aquela barrinha frenética que diz onde cada fulano clicou neste exato segundo. O problema é que sou viciada neste diabo. Por questões de stalkerismo, é lógico. Tenho ânsia de saber o que aquele único, aquele específico ser do sexo oposto andou curtindo e escrevendo por aí. Para ter informações tão preciosas, leio as novidades de outras novecentas e cinquenta almas que conheço tão bem quanto a tiazinha com quem divido a viagem de ônibus.

E cada uma delas também tem amigos que comemoram mais um ano nessa terra pé no saco. E cada uma delas se vê obrigada a prestar sua homenagem quando o facebook diz, sem cerimônia “Dê Parabéns Para Ela”. E, ao invés de saber que o guri curtiu a foto de uma biscate qualquer, leio as frases iniciais aos aniversariantes, como quem passa os olhos pelo stande de cartões na livraria.

Você, que é uma pessoa normal, que tem vida e amigos e mensagens do whatsapp pra responder, não deve ter notado. Mas estas mensagens costumam ser iguais. Vejo cada um dos amiguinhos repetindo diariamente o ctrlc+ctrlv e fico puta com a prostituição do parabéns. Ok, ok, os desejos de saúde, amor, paz e felicidade são bastante universais. Mas será que precisa desejar tudo isso praquela colega de faculdade com quem você estudou uma disciplina, há dez anos?

Se o aniversário é meu, os níveis de incômodo atingem picos semelhantes à Torre do Banespa. Sinto que estou num filme sobre o Dia Dos Mortos e cada um vem me assombrar. No meio disto, alguns poucos amigos de verdade que provavelmente vão beber comigo num boteco pobre da Augusta.

E para você, pessoa normal que agora coça a cabeça revendo seus modos na redinha, já adianto. Não sou um exemplo de bom mocismo por lá. Na maioria das vezes, escolho ignorar os aniversariantes. A regra é simples. Não falou comigo por meses? Sem parabéns, amigão.  

Mas os poucos que sobram ganham mensagens engraçadinhas, personalizadas. Pelo menos eu tento. Posso cancelar o stalkerismo por alguns minutos para ser legal com quem merece. É isso que importa no final das contas, não é mesmo?

O empreendedor do Facebook quer ser seu amigo. Mas é claro que ele quer. Afinal você é um parafuso a mais em seu intricando sistema de “relacionamento” “estratégico”.

Como a Bailarina, na Ciranda de Chico Buarque, o empreendedor do Facebook não é como eu e você. Todo mundo tem ~sala sem mobília, goteira na vasilha, problema na família~. Só ele (e a bailarina) que não tem.

Por outro lado, ele tem 173 dicas para startups. A fórmula do retweet perfeito [porque o empreendedor obrigatoriamente está ligado às redes sociais], o infográfico definitivo, o convite para beta-tester, a vaga no Google, as receitas pra quem mexeu no seu queijo digital.

Suas atualizações são tão assépticas que você sente uma pontada no rim ao publicar aquele comentário bêbado, direto da balada (ninguém disse que isto está certo, mas você está bêbada e não liga).

Logo abaixo de seu ininteligível ~fuck thehsa worlzzzz lezzz paaarytydsgdhbsafdf~ está o empreendedor. É madrugada, mas isso não o impede de compartilhar com os 4.563 amigos o novo movimento da Microsoft na briga pelo sistema operacional.

Seria fácil tirá-lo da lista de atualizações.

Mas o problema é que, secretamente, você o imagina em meio a uma quantidade considerável de pó, em um apartamento claustrofóbico, infeliz porém profissional demais para que isto transpareça em sua rede de contatos. Este sentimento de empatia te faz até curtir um infográfico, vez que outra.   

Além disso, a imaculada timeline é um termômetro para os dias em que você pesa a mão em vídeos de Elliot Smith, compartilha as mais atormentadas frases de Sylvia Plath e encerra a noite com ~fuck thehsa worlzzzz lezzz paaarytydsgdhbsafdf~.

A sabedoria está no equilíbrio. Pelo menos é o que o empreendedor do Facebook compartilhou em seu último status. 

O problema com o Facebook, e com a escrita em geral, é que ele faz as pessoas esperarem mais de você.

A coisa toda é muito semelhante à dinâmica de pré-adolescentes pseudo rebeldes. Vocês estão em volta de uma fogueira, por razões que não vem ao caso, alguém diz que seria bom ter um baseado. De forma inocente, você leva a mão ao bolso. Todos ficam em silêncio. A expectativa é tão grande que você quase pode usá-la para modelar bonequinhos imaginários.  Você não desejava ter feito isto e só agora percebe o erro. A mão ao bolso significava simplesmente que você estava entediada demais e buscou o conforto de um cigarro mentolado. A constatação deixa o clima pesado e as pessoas te observam decepcionadas e incrédulas.

Mas voltando ao assunto.

“Você não é nada como eu imaginava”, foi a declaração por demais sincera que ouvi recentemente de alguém que me conheceu primeiro pelo Facebook. Não precisa ser um gênio das relações interpessoais para entender isto como o contrário de um elogio.

Porque não escrevo errado, porque não digo “olha que legal essa pagina, curti aí” ou não me contento simplesmente com publicar link do youtube sem uma descrição detalhada que envolva qualquer tipo de sofrimento trazido pela música, as pessoas pensam que sou minimamente articulada, uma boa parceria para conversinhas de bar.

Não, não sou. Existem poucos tópicos que me motivam a falar sobre, na vida offline. Tão poucos que não surgem agora em minha mente. Isso não significa que sou uma louca problemática com problemas sociais que odeie uma conversinha de bar. Pelo contrário. Sou uma louca problemática com problemas sociais que gosta de uma conversinha de bar simplesmente pelo fato de saber que todos por ali gostam mais de falar do que de ouvir. E isso está ótimo para mim.  

Então, por favor, não pense que transferir nossa amizade do virtual para o real a tornará mais interessante. A melhor forma de conversar comigo a poucos metros de distância, será o uso do bom e velho wi-fi conectando os dois laptops. 

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1996 foi marcado pela morte de Tupac. Eu não sabia disso na época. Não sabia porque, do alto de meus doze sofridos anos, as preocupações eram outras. Basicamente, duas: fugir da briga com as malvadas da escola e temer pela saúde de Renato Russo.

Se eu conseguisse fugir das brigas (esqueça os tapinhas e puxões o de cabelo dos filmes, a realidade infantil da minha cidade incluía cacos de vidro e muito ódio no coração) poderia chegar em casa e ouvir a fita K-7 que se prestava à trilha sonora do sofrimento juvenil.

Aí o cara morreu e minha versão de 12 anos jurou morrer junto. Não tinha muito o que fazer para prestar minha homenagem, de modo que plantei uma flor nos fundos de casa e chorei pelas próximas horas. A flor morreu na semana seguinte, bem como o choro.

Mas vamos esquecer toda esta amargura da infância e imaginar que Renato Russo e Tupac estejam vivos hoje. Só para que possam morrer amanhã e, assim, ilustrar meu exemplo.

Então Tupac morreu novamente. 90% da timeline sabe que ele é famoso mas só o reconhece porque o nome estampava a camiseta de alguém que o assaltou em algum momento. Ou porque.. bem… é… só por isso mesmo.

Mas eu gosto do Tupac. Mais do que gosto do Renato Russo de hoje. Houve uma inversão e Tupac tornou-se meu ídolo número um. Simples assim. Então é natural que meu perfil tenha um post altamente dramático e choroso.

O problema não é este porque, claro, o diabo são os outros. O problema é que, por Tupac estar nos trending topics do Twitter e na homepage de cada portal de notícias, todos ~meus amigos~ sentem uma obrigação quase religiosa de comentar o acontecido.

E eles fazem isto com.cada.morto.

Foi o Twitter quem incutiu esta síndrome de Plantão da Globo em cada brasileiro, mas é no Facebook que ela se manifesta com mais força. Todo mundo está conectado o tempo todo e, ainda assim, ser o primeiro a dizer “Fulaninho morreu” te dá um status de Cidadão Atualizado/ Espertinho/Descolado/Curador (ha-ha).

A verdade é que você não passa de um homem placa. Sua placa é uma tela de LED, conectada a um sistema de notícias parecido com aquele elevador do prédio comercial. E você passa o dia cuspindo informações de todas as editorias. Tempo? Check. Novo vídeo da Lady Gaga? Check. Disputa presidencial americana? Check. Não precisa ter lido. Não precisa fazer sentido algum. O barato está em compartilhar primeiro.

Quer agora uma notícia exclusiva? Sentimos preguiça de você, homem placa.

No final dos anos 80, quando eu era uma criança gorducha e engraçadinha com óculos remendados com fita durex morando numa cidade mínima do sul, a diversão da minha mãe (a gente não tinha nem mesmo uma tevê colorida, então baixem as expectativas) era aloprar os evangélicos que batiam palmas no portão.

Eles apareciam a cada sábado, quando a comida ainda estava sendo preparada e cheirava tão bem que deixava meus óculos embaçados por espiar seu cozimento a cada quatro minutos.

Os evangélicos queriam ler passagens da Bíblia e geralmente minha mãe gritava alguma coisa engraçada (para mim) e aterradora (para eles). Ou os deixava entrar e fumava maconha enquanto alguma tiazinha, em visível pavor, tentava salvar uma alma. True story.

Estes eram os tempos bons. Quando Jesus não te cutucava e seus fiéis não compartilhavam mensagens através de fotos tiradas daqueles power point das tias da década retrasada.

Veja bem, não tenho nada contra religião nenhuma. Acho da horinha ter alguém para quem gritar socorro em horas difíceis, tipo a chegada da fatura. Mas me taguear numa foto onde podemos ver um rapaz pregado na cruz com a legenda “ELE MORREU POR SEUS PECADOS. FELIZ PÁSCOA ” é fardo maior do que posso carregar.

Não sou a única a ter problemas com isto. O que acaba gerando um problema ainda maior. Os ateus do Facebook. Um grupo tão fanático quanto qualquer grupo religioso.

Não quero tomar partido mas, deus do céu! Todo o propósito de ser ateu é orgulhar-se de não enfiar religiões goela abaixo. E eles fazem isso com fotos de Silas Malafaia, Papa Milionésimo Segundo e cia.

Dude, eu não preciso dessa gente na minha timeline. Mesmo que você tenha algum fato muito desconcertante sobre cada um deles. Não.me.interessa.

Você conhece alguém que mudou de religião ou desistiu de uma porque viu um post no Facebook? Não né? Tornar-se o monstrinho que você quer combater não deu certo antes e não dará certo agora. Get over it.

Mas a verdade é que a coisa mais irritante sobre o Facebook está no Contrato Implícito De Amizade Eterna.

Porque um dia você acorda e percebe que aquela criatura que está ali falando em sua timeline não representa absolutamente nada em sua vida. Ou, em um caso pior, você acorda, a pessoa faz algo muito filho da puta na vida offline e representa algo péssimo para todo o sempre.

E ainda que você tenha absoluta certeza de que nunca mais pisará no mesmo chão que esta criatura, você se sente mal por excluí-la da rede. Por que, meu deus? Por que temos esta obrigação de manter a porra da amizade online?

Uma vez fiz isso e a criatura teve a capacidade de mandar uma mensagem (eu não sabia que isso era possível. Zuckerberg, se você estiver lendo exte texto saiba que não me interessa manter contato com gente que acabei de excluir) me chamando de infantil.

Mas vamos usar a voz da razão por um breve momento e analisar: o que há de infantil em cortar laços ao invés de arrastar uma relação de falsidade? Quer dizer que dar like em  suas fotos, quando quero que você entre em um balão de hélio, voe para longe e exploda, é a forma adulta de lidar com este tipo de gente? Bitch, please.

O problema é que o propósito do Facebook, uma rede de pessoas das quais você gosta e com as quais compartilha seus momentos, foi retorcido e modificado a ponto de tornar-se um monstro irreconhecível.

Foda-se se você é meu amigo ou não. O que importa é ter mais de mil amigos, ou alcançar a gloriosa marca de cinco mil para que os próximos estúpidos sejam assinantes. Foda-se se a foto que foi curtida contém algum senso estético. O que vale é contabilizar 200 likes e vê-la compartilhada em outros murais. How fucking great.

Minha maior felicidade, numa segunda-feira particularmente desprovida de graça, foi ler que Zuck criou aquele sistema de assinatura de atualizações. Ou melhor, a capacidade de cancelar assinaturas. Este é um step desconfortável mas, por vezes, necessário. Já que, de uma hora pra outra, virou lugar-comum ter chefes e avós na lista de amigos, ao menos posso me livrar de seus pensamentos de liderança ou dicas de crochê.

Falta agora institucionalizar o botão Ex-amigo So What?. Já tem meu voto. 

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Meu problema com o Facebook é que requer auto-censura. E a minha pode ser comparada à de um elefante. Eu escrevo o que penso e geralmente penso coisas que deixam os demais desconfortáveis.

Porque, veja bem. Todo mundo é feliz na redinha. Todo mundo é popular, publica fotos de restaurantes caros e faz check-in em locais que meu salário não cobre nem o tapete. Ou publica letras de músicas felizes, fala do tempo e da chegada da sexta-feira.

Cada um dos casos é válido quando a criatura tem um comentário interessante a respeito.  Saber simplesmente que chove em Porto Alegre é informação que acho no climatempo. Descobrir o significado do seu nome? Sério? Eu poderia pegar um livro com o significado de todos. Mas você não me vê fazendo isso. Não vê ninguém fazendo isso porque é simplesmente chato.

Então tento ser minha versão sem cortes. Essa versão não tem vergonha de fazer piada com as tragédias do dia a dia, como o fato de não ter dinheiro ou de estar sozinha num festival cheio de gente deveras esquisita. Que pratica a tietagem mesmo após a idade tolerável. Que ouve rap e vê filmes muito distantes das prateleiras de lançamentos. Que reclama e reclama sem fim.

O problema é que nesses cinco anos de Facebook, vim aceitando todo mundo como amigo, sem me dar conta do pepino que seria ter numa mesma plateia o ex-professor, o colega de trabalho, o parente distante, o amigo de outras épocas. Cada uma dessas pessoas, naqueles tempos de vida offline, conheceu uma versão de mim.

A versão da faculdade era calada, perdida em livros, tímida. A versão do colega de trabalho é a versão que fala sobre metas e resultados. O parente distante não vê minha cara desde o carnaval de 1992, quando eu andava por aí fantasiada de índia (valeu, mãe). O amigo de outras épocas espera que eu compartilhe de seu amor pelas bandas daquele tempo, mas mudo muito pra conseguir realizar seu desejo.

Eu sei que existe uma forma marota de classificar amigos e selecionar quem lê o quê. Mas não tenho idade nem paciência. Então sigo fazendo as piadinhas depreciativas que definem minha existência e, provavelmente, incomodando uma dezena de pessoas.